Por Jonathan Menezes

mano-en-cristal-con-lluviaNessa breve reflexão, gostaria de falar sobre a importância de assumirmos e lidarmos com nossas fraquezas enquanto caminhamos pela vida em missão. E, mais do que isso: desejo afirmar que as escolas teológicas têm um papel fundamental nesse processo, de fomentar uma espiritualidade tanto mais divina quanto mais humana, seguindo o exemplo da kenosis do Filho de Deus, que a si mesmo se esvaziou, se humilhou e assumiu a forma de servo. Como resultado, a espiritualidade cristã (e missionária) será também a espiritualidade da kenosis, a espiritualidade do (ou precedida pelo) esvaziamento, uma espiritualidade frágil por natureza, mas que (lembrando a celebre afirmação do apóstolo Paulo): é forte quando se faz fraca.

Para tanto, quero iniciar examinando duas afirmações que devem servir aqui de ponto de partida. A primeira é de David Bosch: “A verdadeira missão é a mais fraca e menos impressionante atividade humana que se pode imaginar, a própria antítese de uma teologia da glória”.[1] Bosch não está sozinho nesta percepção. José Comblin também escreveu algo nesta direção, servindo de inspiração ao próprio Bosch em sua abordagem à espiritualidade missionária de Paulo: “A fraqueza não é nenhum acidente da missão, nenhuma circunstância que se tenha que lamentar. Muito pelo contrário, é uma condição prévia de qualquer missão autêntica”.[2]

Quando pensamos a missão na perspectiva triunfalista da nobreza do “meu chamado”, de um grande empreendimento da igreja ou mesmo de uma cruzada no mundo a fim de “ganhar almas para Jesus”, estas afirmações soarão um tanto estranhas e sem propósito. Afinal, a evocação de um lugar de um poder e uma unção sobrenatural sobre o missionário ou embaixador de Cristo torna-se necessária e até comum para justificar uma missão de tal natureza. Ou seja, para lutar contra as potestades que dominam a terra e aprisionam as almas dos mundanos e pagãos, é preciso se revestir de força e se lutar com as “armas da fé”. Assim, o linguajar militar, não muito estranho aos escritos bíblicos, mesmo os de Paulo, mas utilizado fora de contexto e para propósitos duvidosos, domina esse tipo de cosmovisão missionária. O problema é que, mesmo arrebatando e convencendo a muitos de sua eficácia motivadora, ela provoca um duplo afastamento: (1) o do mundo desse Cristo bélico e conquistador e, (2) da igreja da perspectiva do Cristo da cruz dessa missão triunfal e gloriosa, que acaba se transmutando, de um ideal-raiz da vocação e espiritualidade cristãs, em uma ideia desorientada e deturpada de apresentar Deus ao mundo.

Quando olhamos para o caminho (missionário) de Jesus, porém, a imagem não é de triunfo, glória ou conquista, mas de submissão, fragilidade e dor. Com isso não quero dizer que, em Jesus, Deus foi derrotado, e sim que nele vemos o sentido de que perder nem sempre é signo de derrota; pode ser caminho para uma vitória não triunfal, mas significativa. Assim é para mim a relação entre a cruz e a0 ressurreição. A mensagem da cruz carrega o gene da morte, que gera vida, como no paradoxo do Cristo: tentar salvar a vida é, na verdade, perdê-la; já perder a vida, pela causa certa, é achá-la (cf. Mt 17.25). Jesus também falou em Mateus sobre negar a si mesmo: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome sua cruz e siga-me”. O paradoxo aqui, porém, é que negar-se é uma forma de declarar a morte de algo dentro de si (o que Paulo chama de “velho homem”), a fim de fazer brotar e florescer da própria vida um novo ser humano. Não, Deus não é sádico; não quer que a gente morra apenas pelo prazer mórbido de nos ver morrendo; não nos criou para rejeitar a vida, mas para afirmá-la. No entanto, segundo Jesus, é negando-se a si mesmo, desfazendo-se de todo orgulho de ser, abraçando a própria fragilidade, reconhecendo-se como ser dependente é que podemos afirmar a vida e a liberdade humanas.

A mensagem da ressurreição, por sua vez, não existe nem faz sentido se separada da mensagem da cruz. Para ressuscitar é preciso morrer e é morrendo que se vive. É uma mensagem de vida abundante, mas não sem morte; de alegria, mas não sem tristeza; de vitória, mas não sem fracasso; de força, mas não sem fraqueza; de luz, mas não fora das trevas. Deus não ressuscitou Jesus dos mortos preocupado com a propaganda do seu governo sobre a terra. A ressurreição não é prova de nada nem existe para provar alguma coisa. Não é o aguilhão daqueles que, como Tomé, precisam “ver para crer”, mas para o bem-aventurados do reino os quais, mesmo não vendo, creram e creem (cf. Jo 20.29). O Pai ressuscitou Jesus dos mortos porque Ele é o seu Filho amado; para que a morte não tenha a última palavra; para confirmar a obra do Filho; para que nós encontrássemos vida Nele e, tendo vida, tivéssemos esperança e, tendo esperança e pela fé, espalhássemos essa boa nova de vida, amor e esperança ao mundo.

Como não impressionou pelo poder, como disse Comblin, é possível afirmar que Jesus não teria um perfil para ser um missionário cultural ou transcultural em nossos dias, por falta de requisitos mínimos para se encaixar (conforme as caixas de encaixe hoje vigentes em muitas igrejas e agências missionárias do mundo): caminhou à margem da religião e da cultura; abraçou não apenas as vulnerabilidades humanas como escolheu ser humilde entre os humildes e desgraçados; não primava por demonstrações sobrenaturais de poder, pelo contrário, em muitos milagres que realizou pedia total sigilo daquele(a) que o recebeu; não partiu para o caminho da apologética ou defesa da fé, cercando-se de argumentos fortes para “defender” a perspectiva do reino de Deus, de modo que, em Jesus, não se faz ninguém se achegar ao reino pelo poder do argumento, mas pelo caminho da fragilidade, da infantilidade espiritual, do diálogo, do arrependimento, do perdão e da graça. Como lembra Comblin, “os homens são vulneráveis. A possibilidade de mudança radica justamente nessa vulnerabilidade”.[3]

Ademais, Jesus não se aliou às estruturas e poderes de seu tempo, ao mesmo tempo em que rejeitou o caminho da usurpação de ser “igual a Deus” (cf. Fp 2.6); apresentou a boa nova do reino em obediência à sua missão, sem se preocupar em agradar a ninguém ou mesmo com o possível insucesso, rejeição ou má reputação. Jesus foi um profeta, e profeta que é profeta não esconde sua fragilidade nem teme perder a própria cabeça. Por essa razão é que, segundo vejo, as perspectivas de Bosch – de que a missão não tem nada de impressionante, é antítese de uma teologia da glória – e a de Comblin – da fraqueza como condição prévia de uma missão autêntica – faz jus à perspectiva bíblica e primitiva de uma espiritualidade da missão. Isto porque, conforme analisa Comblin, a tentação pela qual passa o missionário ou o ministro é parecida com aquela enfrentada por Jesus: “a tentação de messianismo, a tentação da força, do poder, do dinheiro e da cultura”.[4]

Nesse ano completo dez anos atuando na educação teológica. Já vi um pouco de tudo, e posso dizer que nunca lidei com estudantes que, em geral, parecem ser tão pouco ambiciosos/as em termos ministeriais ou missiológicos como os que com os quais tenho lidado hoje. Parece que vivemos o que alguns chamariam de “crise de vocação” (referindo-se, obviamente, mais à vocação pastoral), de modo que a leitura de alguns desse momento poderia ser bastante negativa. Para mim, porém, ela é sintomática (e aqui estou sendo bem especulativo): talvez muitos tenham se desencantado em relação a esse tipo de vocação porque se trata de um empreendimento muito promissor em termos de promoção denominacional e institucional, mas bem pouco de promoção da vida e dignidade humanas. Percebo certo receio de que, para ser ministro/a, seria preciso ser menos gente, menos humano/a, menos dado/a à demonstração de fragilidades e, consequentemente, menos suscetível ao erro. Certamente temos de repensar a vocação ministerial nesse momento de crise, mas gosto de pensar que esse desencanto é também uma oportunidade.

Oportunidade de dizer para esses jovens que esse negócio de ser “super crente”, de fato, não tem eco bíblico nenhum. Que os “grandes” heróis da fé foram os que mais ousaram “se apequenar” aos olhos desse mundo, os que prezaram mais pela integridade e não deram a mínima para reputação. De que é normal se sentir triste e desanimado vez por outra; de que nem sempre seremos vitoriosos e campeões em tudo; de que pode haver uma enorme vantagem em certas “desvantagens” que sofremos nesse mundo competitivo e capitalista selvagem; de que para ganhar é preciso aprender a perder, e que é morrendo que se vive. Nesse sentido, Bosch disse algo que a meu ver poderia ser lema da espiritualidade frágil e kenótica aos professores de teologia, escolas teológicas e igrejas que ousarem abraça-la: “A igreja não é composta de gigantes; apenas seres humanos feridos podem guiar outros até a cruz”.[5] Tomo como minha missão pessoal, enquanto educador, a de comunicar para meus estudantes que não é preciso anular fragilidades para ser discípulo ou testemunha de Jesus Cristo, e de que ser discípulo, portanto, é a melhor maneira de ser e se encontrar humano.

[1] BOSCH, David. A Spirituality of the Road. Scottdale: Herald Press, 1979, p. 76, tradução minha.

[2] COMBLIN, José. Teologia da missão. 2ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1983, p. 56.

[3] Ibid., p. 58.

[4] Ibid., p. 60.

[5] BOSCH, Op. Cit., p. 77, tradução minha.

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