Alessandro Rodrigues Rocha

distorted_hermeneuticsA destoricização do fazer teológico que marca a educação teológica confessional, sobretudo em sua expressão apologética, precisa ser enfrentada de forma clara e corajosa. Tal superação passa pela afirmação da contingência de todo o discurso. Marcar a dimensão contingente do saber teológico é assumi-lo como uma tarefa inconclusa que exige permanente atenção de seus agentes em face do objeto de suas reflexões.

Neste sentido é necessário uma abertura da educação teológica à hermenêutica, não somente em sua dimensão técnica (comumente aplicada aos abismos culturais e linguísticos que a Escritura tem com relação ao contemporâneo), mas, sobretudo, em sua dimensão estrutural. As ciências humanas e sociais, de todas as demais ciências que serão sempre humanas porque realizadas desde a condição humana, se constituem como atividades interpretativas.

No âmbito da hermenêutica a construção de sentido, o que vulgarmente chamamos de verdade, se dá na historicidade do ser a partir da linguagem. Por isso, é possível afirmar que a relação leitor/texto é constitutiva de sentido. Em outras palavras, na hermenêutica é possível trazer a lume o olhar “adiante do texto”. Para José Severino Croatto a adesão à hermenêutica surge da “convicção de a Bíblia não ser um depósito fechado que já ‘disse’ tudo. É um texto que ‘diz’, no presente, mas que fala como ‘texto’, não como uma palavra difusa e existencial que somente tem o sentido genérico de provocar uma decisão minha[1]”.

Da compreensão da historicidade do ser surge a relação dialógica que se efetua pela linguagem através da tradição[2]. Perceber seu próprio horizonte e também o do texto com que se está lidando é fruto dessa dialogicidade. Nesse momento hermenêutico ocorre tanto a percepção de horizontes – o do texto e seu mundo e do leitor e seu mundo –, como a relação de ambos pela intensificação do processo dialógico, o que H. G. Gadamer chamou de fusão de horizontes. Para ele, “o horizonte do presente não se forma pois à margem do passado. Nem mesmo existe um horizonte do presente por si mesmo […] compreender é sempre o processo de fusão desses horizontes[3]”.

Aqui, o tema da compreensão, tão caro à hermenêutica filosófica moderna, ganha sua maior amplitude: compreender é tarefa que só se realiza no encontro dos horizontes do passado (do atrás do texto) como o presente (o diante do texto). A relação autor-texto abre-se ao protagonismo de homens e mulheres que aqui e agora identificam suas histórias com aquelas fixadas em certas textualidades. O dístico leitor-texto é o espaço mesmo da afirmação do sentido. Não há, portanto, um sentido dado desde sempre habitando um não lugar, mas, antes, a única possibilidade de afirmá-lo no chão concreto onde homens e mulheres pisam e constroem suas histórias. Na noção gadameriana de fusão de horizontes, ocorre o intercâmbio de significados possibilitando a compreensão. Pois “faz parte da verdadeira compreensão o recuperar os conceitos de um passado histórico de maneira que contenham, ao mesmo tempo, o nosso próprio conceber[4]”.

A fusão de horizonte é, todavia, inconcebível sem a intervenção da linguagem[5], pois “a fusão horizôntica […] ocorre através da lingüisticidade da interpretação. Através da interpretação o texto tem de vir à fala[6]”. Levando sua tese ao mais radical desdobramento H. G. Gadamer afirma que “nenhum texto, como também nenhum livro fala, se não falar a linguagem que alcance o outro[7]”. E conclui:

Assim, a interpretação tem de encontrar a linguagem correta, se é que quer fazer que o texto realmente fale. Por isso, não pode haver uma interpretação correta “em si”, porque em cada caso se trata do próprio texto. A vida histórica da tradição consiste na sua dependência a apropriações e interpretações sempre novas. Uma interpretação correta em si seria um ideal sem pensamentos, incapaz de conhecer a essência da tradição. Toda interpretação está obrigada a entrar nos eixos da situação hermenêutica a que pertence[8].

Sendo o horizonte do leitor um elemento definitivo para – numa dinâmica de cooperação – gerar o sentido no encontro com o horizonte do texto, tanto a superação da verbalização da revelação, como de sua racionalização estão garantidos. Primeiro porque o texto da Escritura passa a partilhar com o texto/acontecimento do leitor o status de locus da revelação. Fazendo assim todo o sentido a concepção de Andrés Torres Queiruga da revelação como maiêutica histórica, onde a Escritura é a maiêuta da revelação. Segundo, no horizonte do leitor, por conseguinte, também no horizonte do texto, a experiência vivida no chão concreto da existência é a chave privilegiada para compreender o Deus revelado. Até porque, o Deus revelado o é não em um conceito, mas na história, ou melhor, nas histórias de homens e mulheres.

Tudo isso garante, por sua vez, que o acesso à revelação do Deus sempre presente na criação e, sobretudo, na existência de homens e mulheres – desses seres-no-mundo – seja plural e aberto. É plural porque não há uma interpretação desse evento que seja correta em si, mas tantas quantas forem os leitores e suas comunidades de vivência e partilha, onde a Escritura puder parturiar a presença sempre presente de Deus. E é aberta, porque todos os homens e mulheres podem fazer a experiência de se encontrarem conscientes do Deus sempre presente a partir das dimensões antropológicas e dos elementos culturais que lhes forem peculiares, ocorrendo assim a superação do vício epistemológico moderno em que se constituiu o racionalismo.

A hermenêutica filosófica moderna, com sua incidência na exegese e na sistemática, leva a teologia e, mais especificamente as incursões que ela venha a fazer sobre o tema da revelação, a outros patamares, a um deslocamento da ênfase nas instância pré-canônicas (mundo por detrás do texto), à valorização da história dos efeitos própria da dimensão canônica do texto (mundo adiante do texto).

[1] CROATTO, José Severino. Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Paulinas São Leopoldo, Sinodal. 1984. p. 7.

[2] H. G. Gadamer dedica a terceira parte da obra Verdade e Método à discussão da importância da linguagem para a hermenêutica. GADAMER, Hans-Georg. Op Cit. p. 557-709.

[3] Ibid., p. 457.

[4] Ibid., p. 551.

[5] Cf.ibid., p. 576-589.

[6] Ibid., p. 578.

[7] Ibid.

[8] Ibid.

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